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06 ago 2020

Como sobreviver ao mundo V.U.C.A

A cada dia que passa me convenço mais de que essa coisa de bolha é mesmo uma grande verdade. Quando falo de bolha, me refiro a um microcosmos que te cerca e te faz acreditar que tudo que é óbvio pra você é óbvio para todos. Bem, o conceito de V.U.C.A não é óbvio para um porrilhão e meio de pessoas, então esse preâmbulo existe para deixarmos todos na mesma página. Dale?

V.U.C.A é um acrônimo criado pelos americanos que tentavam entender como seria o mundo pós-guerra fria. Volátil, incerto (do inglês uncertain), complexo e ambíguo, assim descreveram o cenário do nosso cotidiano, afirmando e reafirmando o que Heráclito já falava 2.500 anos atrás: nada é permanente, exceto a mudança.
Uma diferença entre o tempo dos gregos e o nosso é o que mais sobressai: a velocidade. Hoje, o timing das coisas e das pessoas é outro, muito mais rápido, esguio e líquido. Quando você foi olhar, já passou. Viver nesse mundo, como diria o Capitão Nascimento, “é foda parceiro”.

Sobreviver à volatilidade de mercados em queda ou crescimento, à incerteza de um capitalismo de consumo, à complexidade das relações humanas reais e virtuais e à ambiguidade das verdades, mentiras e pós-verdades é tarefa complicada e por conta disso resolvi divulgar meu kit pessoal, itens que simbolizam meu mindset de vida. Se fizer sentido para vocês, maravilha. Se não fizer, compartilhem o texto, de repente faz sentido para outro alguém, não é mesmo? Dito isso, vamos ao kit…


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ITEM 1: Relógio
Ele serve para te lembrar que jogamos um jogo que não tem botão de “pause”, que a impermanência é a maior força da natureza, que o movimento é a única certeza. O relógio não deve te servir só de guia das horas, mas de alarme para a finitude, despertar para coisas que façam sentido, que te façam feliz e ao mesmo tempo paguem suas contas.

ITEM 2: Espelho
Para que você reconheça que da sua existência não sobrará corpo, talvez não sobre nem alma. De certo mesmo, o que sobrará de você nas pessoas e no mundo que te viu viver serão suas intenções, seus desejos e a forma como você os materializou ou não. Esse espelho é pra te lembrar que o único legado que deixamos na vida é o que fizemos, dissemos, escrevemos, compartilhamos.

ITEM 3: Caixa vazia
Veja bem…se a impermanência é a única certeza, então a posse é uma ilusão. Não possuímos nada que não nós mesmos, e olhe lá! Desapegue-se pois no fim dos tempos, nada e ninguém será seu. Use mais, tenha menos. É o que temos para hoje, amanhã e sempre. Larga mão da posse, doe, empreste ou venda tudo que não tem uso no teu cotidiano. É tudo tralha e ilusão. Desapega que eu gamo.

ITEM 4: Anzol e linha
O tal do Friedman tava certo. Quando o li pela primeira vez, na faculdade, fiquei meio puto e nem sabia ao certo o motivo, enfim, coisas da juventude. A real é que não existe mesmo almoço grátis. Comemos aquilo que pescamos. Somos todos pescadores, por isso tenha sempre anzol e linha prontos, você nunca sabe quando vai precisar correr atrás de uns peixinhos para fechar o mês sem entrar no vermelho.

ITEM 5: Fita métrica
Se o tempo tá passando e as coisas ao seu redor mudando o tempo todo, não vejo estratégia mais interessante do que traçar uma rota na direção dos teus objetivos. Don’t go with the flow. Tenha um plano, seja para segui-lo, seja para se deixar levar pelas curvas da Estrada de Santos (já diria o Rei Roberto). Tenha um plano, para poder escolher abandoná-lo. Quando se sentir perdido, use a fita métrica para medir a distância entre quem você é e quem quer se vir a ser.

ITEM 6: Lápis e papel
Não, você não tem memória de elefante e nem poderes especiais de lembrar de tudo que já viu, leu, sentiu. Você vai esquecendo as coisas no caminho, como todos nós, reles mortais. Lápis e papel na mochila e nada de preguiça para tomar nota de ideias, de números, de desenhos. Tenha um caderninho sempre à mão, rabisque, use para colorir, registre tuas jornadas. E depois faça uma re-visita. Você vai se espantar como as memórias saltam das páginas e te ajudam a tomar melhores decisões.

ITEM 7: Canivete suíço
Seja um canivete suíço. Seja um canivete suíço. Seja um canivete suíço. Seja um canivete suíço. Seja um canivete suíço. Seja um canivete suíço. Seja um canivete suíço. Seja um canivete suíço. Seja um canivete suíço. Como? Esteja sempre disponível para fazer algo que nunca fez, aprender algo novo, tentar, arriscar, se incomodar por não saber fazer algo. A mãe de toda versatilidade é o incômodo com a especialização.

ITEM 8: Uma foto sua, de criança
Você pode ser apático ou apática, torcer o nariz para o passado e se esquivar de lembranças, mas teu passado te pertence, é seu e é parte fundamental do seu presente. Carregue sempre contigo uma foto sua, de infância, para que você sempre se lembre o tanto de tempo que já passou, a pancada de coisas que você já fez, a quantidade de quilômetros que já percorreu e o número de vezes que já caiu e levantou. Acima de tudo, olhe sempre pra sua foto quando a tua criança interna estiver tentando te dizer algo que você não quer ouvir. Dói? Dói, mas ajuda.

ITEM 9: A República de Platão e A Política de Aristóteles
Leia esses dois livros e pronto, é tudo que você precisa para construir suas lentes de ver o mundo. Praticamente toda a filosofia ocidental deriva de um ou de outro. Se você é de exatas, segura na mão do Aristóteles e vai. Se você é de humanas, agarra em Platão e vá ser feliz na vida. Se você é Otariano com ascendente em Bucha e não quer ler, problema é seu. Sério, com qualquer um dos dois a sua visão de mundo será mais rica, mais completa. Visão de mundo é um dos skills para o século XXI sabia? Pergunta lá na Singularity! Quanto mais sofisticada e abrangente tua visão de mundo, melhores as chances de curtir o mundo V.U.C.A.

ITEM 10: Coragem
Listen to your heart when it’s calling for you, listen to your heart, there’s nothing else you can do… Ou não escute. Não importa mesmo…Não há mesmo nada que você possa fazer. No fundo, você pode criar mil explicações racionais para se convencer de uma decisão, tentar ser a pessoa mais meticulosa e calculista possível. Não importa. No fundo, você está só se enganando, criando subterfúgios para se convencer de que a razão manda no teu agir. Larga mão de ser besta, você não é mais do que a manifestação das suas emoções, sentimentos, desejos e intenções.
Pronto. É isso. Dez itens que carrego comigo o tempo todo, na cabeça, na mochila ou na mala do carro. Até aqui me ajudaram demais. Não sou a última bolacha do pacote, nem o novo Bauman, mas também não posso reclamar da minha trajetória até aqui…Só achei justo compartilhar esse “kit” por ele não ser meu e sim um aglomerado de ideias e conceitos que me chegaram através de experiências, livros e pessoas. Aproveitem 🙂

Gustavo Brito
Educação Corporativa no Grupo Boticário

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