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13 maio 2020

A arte de chamar inteligência pelo nome

A palavra inteligência é normalmente confundida. Não são raras as oportunidades em que consideramos inteligente uma pessoa que tenha muito informação sobre algo. Nem são poucas as vezes em que chamamos de inteligentes pessoas que tenham tirado ótimas notas na escola. Entendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O fato de alguém ter muita informação sobre muita coisa tem pouco valor se o uso disso não for construtivo. Boas notas na escola significam pura e simplesmente que naqueles momentos em que você fez provas, você conseguiu colocar no papel as informações que armazenou, mas não muito mais do que isso. Se o teu lastro de informação não maximiza suas alternativas de futuro, então esse teu lastro tem pouca serventia. Se suas boas notas não te abriram portas, então você fez mau uso das coisas que andou estudando e memorizando para sair bem na foto. Inteligência não é sobre o que você sabe, é sobre o que você faz com o que sabe.

O conceito de inteligência com o qual me identifico vem do cientista e pesquisador Alex Wissner-Gross (Harvard Institute for Applied Computational Science). Segundo ele, existe uma equação para expressar a forma como a inteligência atua. Nessa equação inteligência é uma força (F), que age para maximizar alternativas futuras de escolha e que depende de intensidade (T), entropia (▼), diversidade de alternativas presentes (S) e tempo disponível (τ). Trocando em miúdos, inteligência não é algo que se tenha, mas algo que se deve usar para maximizar alternativas de futuro para si e para o máximo de pessoas ao seu redor. Sim, inteligência é uma força cujo impacto precisa ser ecossistêmico, pois quanto menos alternativas estiverem disponíveis no ecossistema, então maior será a entropia, a escassez, a finitude. De pouco adianta se você usa de inteligência para abrir portas só para você, pois você não está sozinho no mundo. Pessoas ao seu redor com menos (ou nenhuma alternativa) de futuro, buscarão outras forças (que não a inteligência) para sobreviver. Que forças? Violência, por exemplo. Quanto menos riqueza de futuro você gera para o ecossistema, menos riqueza de futuro para você, entende?


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Vale pouco ser culto, ter boas notas, falar bonito, ter lido mil livros em um ano se tudo isso não for transformado em força que maximiza as oportunidades de escolhas no futuro para o máximo de pessoas. Isso é o que chamo de inteligência. Uma força que age para ampliar perspectivas futuras e que depende muito de sabedoria.

Sabedoria é a arte da adequação. Sabedoria é usar conhecimento na hora certa, na medida certa, com as pessoas certas, no tom certo, no fórum certo. Sabedoria depende de prática, de autoanálise recorrente, de aprendizado. É pouco interessante ter a maior e mais diversa caixa de ferramentas do mundo (conhecimento) se você não sabe ser adequado. Pouco importa se você é uma enciclopédia ambulante e lembra de tudo quanto é informação se no fim você não consegue aplicar teu repertório para resolver problemas reais, complexos e urgentes. Adequação é o nome do jogo. Uma coisa é ter a faca e o queijo na mão, a outra é ler cenário, interpretar contextos e daí encontrar o momento mais adequado de cortar, servir e tirar da mesa. Quando falo de sabedoria falo disso. É uma arte e não uma ciência, pois depende tanto de capacidade analítica quanto de feeling. Análise e feeling para encontrar o timing (pronto, já podem colocar meu livro na prateleira de livros de negócios).

Inteligência é, portanto, uma força que depende de sabedoria, que por sua vez conta com o conhecimento como fonte, que da sua parte é construído a partir da diversidade e tamanho de repertórios experienciais e informacionais. Inteligência é uma força que depende de você, mas que depende também daquelas variáveis da equação do Alex Wissner-Gross. Inteligência depende de quanta intensidade você consegue colocar nas suas ações. Inteligência depende do quanto a entropia está atuando no seu sistema fechado de relações humanas. Inteligência depende da quantidade de alternativas que você tem no presente. Inteligência depende de quanto tempo você tem disponível e quanto tempo você disponibiliza para as coisas. Inteligência parece uma palavra óbvia. Não é. Parece uma força simples de fazer, mas está longe disso. No fim das contas, o tamanho e a potência da sua inteligência dependem de uma complexa rede de contextos que envolvem o teu passado e o teu presente, teu sistema de crenças, a educação que te foi dada ou negada. Isso, entretanto, é tema para outro livro, não esse. Basta aqui dizer, enfim, que sua inteligência para materializar o máximo possível de oportunidades de escolha futura será tão grande quanto tão diverso for o seu contexto passado e presente, tão aberto à reflexão o seu sistema de crenças estiver, tão profundas as oportunidades de educação que você vivencia e vivenciou.

Gustavo Brito
Educação Corporativa no Grupo Boticário

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